domingo, 30 de outubro de 2011

149.


Um dia perguntou-me porque é que eu havia sido engolida pelo vazio e eu respondi-lhe que dos abismos sentimentais nunca ninguém está a salvo. Creio que foi nesse derradeiro momento em que lhe roubei o brilho, em que a despedacei em mil pedacinhos que rapidamente cobriram o chão de sangue. Por momentos consegui sentir a forma desajeitada como o coração dela se debatia entre os compassos de tempo, tentando, numa luta desenfreada com as suas próprias artérias, não perder o ritmo. Consegui ver-lhe a alma morrer um bocadinho, desaparecer um bocadinho. E, por fim, dei conta dos nós que se lhe entrelaçavam no estômago numa ânsia monstruosa. No quarto fiquei apenas eu, o silêncio e a percepção de que nada ia voltar a ser o que era.

2 comentários:

Lucia disse...

De todos os textos que já escreveste, este deve estar no topo dos meus preferidos.

Ana Dória disse...

Os teus registos... dão-me sempre um arrepio. Uma sensação dormente que me trepida o corpo. Que lugar teu é esse de onde escreves? E porque me sinto tão atraída por ele, tal "abismo sentimental"?

Belíssimo, como sempre. Sempre.