Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

182.


O dia ia já a meio quando ele percebeu que havia deixado um pedaço do coração lá do outro lado da ponte. Pensou que talvez seria bom voltar para trás, atravessar tudo de novo e resgatar o bocadinho que havia perdido. Mas logo de seguida achou que era melhor não, que isso do coração quando se perde uma vez perde-se para sempre e, ainda para mais, não aguentaria outra caminhada. De repente sentiu-se pequenino, cheio de medo de ter perdido também todos os cheiros, todos os livros e todas as pessoas que guardava lá nesse borrão de miocárdio até que se lembrou que alguém podia encontrar-lhe o pedacinho e ir à sua procura, nunca deixando cair os cheiros, os livros e as pessoas que amara. Depois achou que não, que se alguém de facto o encontrasse iria ficar com ele, que hoje em dia as pessoas precisam muito de retalhos para os buracos que levam consigo, dentro do peito, e que o mais certo era servir de adesivo. Talvez pudesse, ainda, quem sabe, ser levado no bico de um pássaro que por lá passara e vira caído no chão um insecto estranho, muito vermelho, muito suculento. E talvez, depois, até pudesse cair em cima de uma nuvem, lá no alto quando o pássaro já cansado de carregar aquele bichinho que lhe parecera comestível o deixara cair. Afinal de contas, isso de carregar cheiros, livros e pessoas não é tarefa fácil. E quando essa possibilidade se lhe aflorou na mente, sorriu e ficou um bocadinho menos preocupado, um bocadinho menos feio e pensou que talvez, às vezes, é bom perder-se um pedaço de coração.

Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

181.


No dia em que morri pela primeira vez,
apercebi-me que havia caminhado
sob teus olhos azuis carmim
sempre achando serem de outro tom.

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

180.


E a gente que tenho ainda, essa, colecciono debaixo da cama, no secreto do escuro, do intocável, para que me não fujam nunca, para que não me levem mais.

Sábado, 28 de Abril de 2012

179.



Percorri todas as manhãs de Janeiro e 
só em Agosto te alcancei, junto do estio, 
de cabelos desalinhados, sem palavras nem voz. 
Descobri-te nas vertigens de mim, perto do chão,
onde a memória se esqueceu do teu nome. 
E dentro de ti moravam todas as chuvas
que naufragaram meu peito e todos os temporais
que nos encharcaram, habitando nossas gargantas.
Cessamos e cada um de nós regressou ao barco 
que outrora largara, por não saber sustentar as marés 
de espírito dentro dos vazios das palmas das mãos.
Não morremos, fomos morrendo, lentamente,
de coração inacabado.

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

178.


Havia alturas em que o pôr-do-sol ia embora sem se despedir e a minha pequena orquídea soluçava para dentro o caos e erguia-se feita abandono. Segurava-se nos braços do adeus que não houve e fingia não lhe doer os contornos, mesmo possuindo-os já todos desalinhados. Apanhava as tulipas e enquanto as colocava nos cabelos dizia baixinho "Não se cedem corações assim". No exacto momento em que numa dessas vezes o proferiu, a garganta inflamou-lhe e até eu consegui ver que por dentro ela era já só pouco mais que feridas. A sua voz continha um trago azedo, de quem está vivo e não pára de morrer, de quem sustenta os ombros na inércia das tardes sonolentas e, dentro de si, vivem todas as revoluções do mundo. Já perto do desgaste emocional, da contradição de coração, prometi-lhe nunca mais deixar que esse fim de dia manhoso lhe desabitasse a alma daquele jeito fugido. Sorriu-me. Ela sorriu-me aos segredos, arfou, devagar, devagarinho, para que aquele sorrir fosse para sempre. E eu, para que nunca mais ninguém fosse capaz de abrir mão da minha orquídea, fechei com muita força os punhos.


Domingo, 22 de Abril de 2012

177.


Desaguam dentro das horas vazias,
Os rios que nascem em mim
e
eu
estalo.

Domingo, 15 de Abril de 2012

176.


Não sei romper a maré daquilo que fui e me esqueci. Não sei fugir ao tempo que pareceu estagnar, sempre passando aleijado entre meus dedos. Magoaram-me não as ausências mas os dias que ontem foram demasiado compridos e, por o serem, intragáveis apareceram diante mim, vergando-me. Foi o caos, esse deserto de ti, que me ficou nas articulações, sem nunca o saber contar. Nunca entendi bem como se cede ao temporal depois de ele já ter cessado até começar a sentir com a memória. Há coisas que morrem, nunca deixando de viver e dentro de mim guardo o mar das lágrimas que nunca te chorei.

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

175.



E embora foram esses tempos em que o mar cabia dentro de todas as horas vazias, de todos os espaços quebrados, em que eu procurava pelas ausências que ao adormecer perdi. Partiram esses tempos, em que eras o barco que regressava todos os dias ao entardecer, após a maré se chamar saudade, após o mundo desabar sob os ombros de quem um dia se esqueceu de si. Lá longe vão esses tempos, em que os cabelos se desalinhavam ao vento e também nós éramos arejos de coração. Hoje a tua morada é de longe e já não sei que ruas são essas, as que não têm o teu nome.

                                                                                                         Margaret,  13 de Março de 1986