O astro em desaire, a velocidade do teu amor cona adentro, cona a retro,
uma mistura melancólica por vezes insincera por vezes cobarde
de tesão imenso; a boa nova de sempre -
veleiro em alto mar meu coração.
O astro em desaire, a velocidade do teu amor cona adentro, cona a retro,
uma mistura melancólica por vezes insincera por vezes cobarde
de tesão imenso; a boa nova de sempre -
veleiro em alto mar meu coração.
A menina dança?
[sabemos que agora é tudo o que nos convém
Estar paiada raiada baiada
essa espécie de se ser jovem e fresco
a cintura tipo mola a lua apontando
o sexo húmido ciciando
o corpo enfim a nosso favor
A terra e o fogo de um país cheio de sangue
atravessado espírito adentro sempre pulsante
vivo, capaz, coruscante
A menina dança?
Dançar, sim, dansar [
com que se vai tecendo a vida
Encontrando-se o mundo às avessas
como, de resto, sempre esteve
a guerra a doença o jovem
que se imola a flor encardida
no fim e no começo do anseio
de outra coisa
Penso que os cigarros em jejum
são porventura uma reminiscência
da infância
uma vontade também ela incendida
de recuperar Éden ou algo de semelhante
ainda claro ainda pronto
ainda sem vazio ou Queda
O travo que espraiam nos lábios
esse fumo diligente
é modo e figura do coração
que inconsútil
desbrava a floresta há muito extinta
de um amor verde e luminoso
Ardente sem dúvida
mas de um fogo reparador
como aquele que arderia
no ventre de Eva saciada
Em tudo igual e distinto
ao de Aaron Bushnell

Tudo começa com uma impressão de Agosto;
depois vêm umas mãos
prontas e precisas
[claro
que mais demoradamente
se passam pelas costas
Mais do que essa candura
talvez a promessa há muito
latindo
ainda que tíbia
Depois julgamos que o amor é e não é
um enredo um tanto tolo
um tanto macerado
E ainda assim prosseguimos
cientes do que nos apouca
do que nos domestica
E ainda assim
Há sempre a impressão dessas mãos
essa promessa alhures
um relicário no meio da floresta
o sexo reinventado
saciado talvez sempre fremente e efémero
E ainda assim
O amor, pois, partido em vários bocados
as mesmas narrativas a sua insistência no fio
cansado e triste da memória
nessa paisagem matutada e maturada
As mãos e as costas
uma labuta eterna a nossa fraqueza
depois de Agosto
em não sabermos estar sós

A todos os que amo
estendo uma flor branca
A inocência bem pode
ser o mais letal veneno -
Tenho desfeito entre meus dedos
os caracóis que de meu cabelo
pendiam outrora
Neste país estreito
acordo sempre com a sensação
de uma guerra fremindo
Ignorá-la é cruel
não a ignorar também
Faço-me Perséfone
mordo a romã com fome
e por vezes com fastio
Procuro a mãe que falha
a mãe que murmureja
a indistinta placidez da neve
Desejo mais e ao mesmo tempo
coisa nenhuma
coisa nenhuma
coisa nenhuma.

Amor, devias vir.
Uma árvore é, por vezes, razão suficiente.
Em dias mais oblíquos, a memória da sua seiva
a retinir em nossa pele ainda morena
ainda pronta para a vida,
num Verão possível e perdido.
Mas o amor demora-se, sim, como
reiterando a sua dissonância,
que é a sua forma de ser fugaz cruelmente.
Em certos dias, demora-se o mais
que já esperamos
[sempre.
Éramos frescos, sem dúvida.
Na algibeira havia um pedaço de pão
e uma noz a morder contra a fome.
Havia, sobretudo, a ingenuidade
dos cães vadios,
do seu latir persistente,
do doce modo como posicionam o seu corpo
apesar de faminto
apesar de gelado.
Eu queria um destino mais belo, sim.
Os rapazes partem para Julho como
para uma grande promessa.
A juventude vai-se deteriorando,
parecendo-se cada vez mais
com um vidro quebrado.
As mãos já não possuem
virilidade alguma. As tulipas vermelhas
aonde ficamos despenhadas
como na nossa própria menstruação.
Os rapazes partem ainda, partem sempre.
Amor, devias vir. Devias procurar
o âmago aonde late outra coisa
aonde sou outra coisa
mais afoita a ti e às tuas medidas.
Mas tu desconheces. E desconhecendo-me,
sem saberes, amas-me menos.
É sempre menos o dia em que acordámos,
mesmo depois da paixão
e do frio aconchegado em dois corpos.
Saber olvidar, por certo.
Dar um passo que não seja em falso.
Observar o vidro
a forma como se quebra
como se quebra
em nossas mãos.
Amor devias vir,
[se não fosse já tarde.

Entre a dúvida e a palavra
acelero como quem se sente capaz
finalmente [
de um despiste
Estar contra os astros significa apenas
que trazemos no sangue uma porção
de nitrato
invariável
dolorosa, sem dúvida
irascível
A salvação não se encontra nos
olhos de alguém
[ainda que radicalmente belos
não se encontra num ou outro beijo aceso
não se encontra num certo modo de posicionar
a bacia ou o anelar ou a omoplata
Nem sempre havemos de ter força
às vezes cairemos e o levantar não terá
lugar no momento seguinte
Antes demorará, como se demora a mágoa
na particular cisura do coração
ou a mansa água de um rio antigo.
Não te maldigo, querido. Não te estranho.
A minha pena é sede do nome que me
deram sabendo e não sabendo
os motivos que o encerram
que o impelem à substância última
à ruptura advinda da dor
da maresia
de um gesto atrasado ou por completar.
A impressão das tulipas
a sua vermelhidão enjoativa
o sorriso que desprendem no jarro
paliativo assassino falacioso
oh, sim, a impressão que ficou
depois do amor igual a essas tulipas
a observar-nos os movimentos
com a sobranceria de quem olha
alguém desde cima.
O terrível ângulo, essa fraca forma
de insistir no fúnebre sentido que se tornou
a paixão o seu cavalgar o arquear de umas coxas
outrora prontas para milagres que no fim de contas
terminaram desconhecendo
Ainda não me levanto. Ainda me deixo ficar
um pouco abaixo do solo
na rarefeita paisagem da memória
próxima das raízes das tulipas por arrancar
da terra
como fetos que se conservem no útero
materno
um pouco abaixo de mim mesma, sim [
um pouco abaixo da palavra e da fé
Mas não te maldigo, querido. Não te estranho.
Simão,
A linha de comboio parece
de facto
em certos dias
o mais justo destino.
Mas há a andorinha que
apesar de tudo
regressa na Primavera
e o morcego que
na sua rota
um tanto desvairada
por insectos
valsa ainda à nossa janela
Este poema é para ti
e ainda que fale de morte
fala, sobretudo,
[de esperança.