domingo, 12 de fevereiro de 2012

167.


Deixei-me também eu no outro lado da margem, nesse rio onde os amores de outono se diluíam. A matéria de que era feita a minha alma ia junto da corrente e deixava-me ainda mais só, nessa solidão que são as noites sem luar. Nesse entardecer, pareceste-me curiosamente mais distante e que torpor era esse rio de não pensar-te aqui, perto, de coração bem apoiado no parapeito da janela de minha casa.
Ali sentada, congelavam-se-me não as ausências mas todas as entradas forçadas, todos os arrombos das portas do espírito, todos os orgulhos calcados e todos os "gosto de ti" transformados em monstros. Via-me então, do outro lado da margem, feita remendos e saudades. Eu era saudades de não me saber mais, de não me possuir mais. E durante muito tempo ali fiquei, aguardando que o regresso das andorinhas me trouxesse também a mim.
Só mais tarde vim a saber que nesse ano não houve primavera.

Margaret,  16 de Agosto de 1986

7 comentários:

Ligações disse...

A ausencia de nós mesmos faz coisas engraçadas, obrigando-nos a recordar.

Ligações disse...

É do que vivo hoje, do passado, agarrado a todas as pessoas que fazem parte de mim, e é por eles que me levanto, é por eles, é por voces que estou disposto a dar todo o meu tempo livre...
Só que todos os dias vejo fantasmas, só eu sei o quanto é dificil fugir deles, serei forte o sufeciente para não me perder outra vez? não sei, mas agora, agora que achei algo com que posso agradecer a todas as pessoas, vou-me aguentando.

annie disse...

todos os "gosto de ti" transformados em monstros - adoro.

Anónimo disse...

Peço desculpa pela invasão, mas gosto imenso da tua musica de fundo. Poderias dizer-me quem a interpreta e o seu nome? :)

Maria disse...

Boa noite. Posso sim, claro. Dark Dark Dark - Wild goose chase.

Maria Francisca disse...

tenho andado longe disto...

May Pacheco disse...

gosto de tua escrita.. é deverás profunda