sábado, 8 de janeiro de 2011

98.


Nunca consegui compreender o seu medo à morte. Era uma mulher enorme. De cheiro a lirios cravado no coração. Mas tinha medo. Muito medo. Medo da morte. Talvez por não gostar de frio - detestava-o. Ou talvez por gostar demasiado de viver. Por gostar de sentir.
Não podia controlar a morte. Não, de modo algum. E era isso que a assustava. O facto de não ter controlo sobre algo. Porque não controlar deixava-a assim - de coração nas mãos. E era desse jeito que ficava sempre que a morte a beijava. Beijava-lhe a face de lábios cor de pétalas roxas. E sentia azedo. Sentia azedo naqueles beijos gelados. O coração disparava. E era assim. Sempre assim. E sabes? Era uma grande mulher. De coragem na alma. Um génio. E tinha tudo. E sentia medo. Muito medo. E ainda hoje, não sei bem porquê. Nunca cheguei a descobrir. Nunca ninguém o chegou a conhecer. A mim, a mim deixou-me uma cruz. Um cruz violeta e de sabor amargo. E uma carta - que ainda não li - assusta-me. Assusta-me tanto como a morte a assustava a ela. E sei-o. Sentia medo. Sentia medo porque era enorme. De facto, era enorme. E pequena. Era pequena sempre que a morte se abeirava.

8 comentários:

Marisa disse...

devias escrever um livro. devias, devias.

nés, disse...

está excelente, e adoro como foste largando o puder gradualmente, não tens medo de ser crua, de chocar.

Francisca disse...

Escreves mesmo bem :o
Escreves com a alma, e isso nota-se. Nota-se bem.
Parabéns (:

Francisca disse...

E é assim que tem de ser. Dar a alma àquilo que sabemos ser seguro.

Ainda bem. É onde me sinto mais eu. Onde me sinto mais compreendida. Se é que me faço entender. (:

Luís Coelho disse...

Gostei deste texto.
O medo assusta-nos e mata-nos se não lhe reagirmos. O viver é uma luta onde convivem os medos e as lutas de querer sentir e viver ainda mais e sempre mais.

PLAST!C disse...

Está indubitavelmente forte, cru mas de igual modo temperado, não te canses de abusar das palavras...

rita disse...

concordo com a Maria. acho que vais ser daquelas pessoas que vão ser descobertas por um amante de blogs ou algo assim parecido.
já agora, vi o teu facebook e adorei as tuas fotografias. tencionas ser o quê no fututo, já sabes?

Patrícia Costa disse...

Acho que nunca vi algo tão forte e severo. Mas verdadeiro. Sincero e poderoso. é assim, tu és mesmo assim, poderosa!