sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

99.


Sinto a cabeça a andar à roda. Ainda não chegaste. Que é feito de ti? Não te vejo. Anda por aí algo que não sei bem. Assusta. Tem o teu cheiro - de alma rasgada. E frio. Sinto muito frio. Dizem que é crónico o frio. Se caso o for sinto-me ainda mais assustada - o que seria capaz de me tocar o cérebro e todas as suas particularidades complexas? Não faço ideia. Sinto a cabeça a andar à roda. Ainda não chegaste. E isto ainda continua cá. Passeando-se pelo meu quarto. Dando voltas e voltas, sem fim. Deixando humidade nas partículas. Congelando as minhas artérias. E quase capaz de regelar o meu coração - se este ainda não o fosse - regelado. Ainda assim, nada consigo ver. A neblina tomou conta do meu campo de visão. E sinto. Sinto muito - nada. Anda por aí algo. Toque áspero - mesmo como eu gosto. E enoja-me. O sabor enoja-me. Começo a achar que és tu que cá estás. És, não és? Afinal sempre cá chegaste. E afinal a cabeça anda à roda por tua causa. Nunca te desejei. És como eu, não és? Quando alguém não te deseja é aí mesmo que tu apareces. Insolente. Seu insolente. És que nem eu. E derrubas almas e corações. Enojas-me. E por agora, fica quieto. Estás-me a queimar o sistema nervoso. Senta-te. Não. Aqui não. Não no meu coração. Senta-te lá ao fundo. Junto da parede branca. Naquele canto - que tantas vezes já sentiu as minhas garras. Senta-te, anda lá. Não me faças levantar. Não me faças usar a força da mente - tenho-a em maior quantidade num estado de insanidade que nem este. Isso. Lindo menino. Até amanhã, amor.

7 comentários:

rita disse...

se há algo que admiro na tua escrita é o facto de conseguires pôr aí a tua vida sem que ninguem se aperceba

Nádia disse...

lindo...simplesmente. :)

Laura Ferreira disse...

Concordo com tudo que foi dito...

Jane Porter disse...

Mas isso é uma escolha tua. Claro que se nos entregarmos de corpo e alma perdemos a nossa liberdade fisica e espiritual, mas isso depende de ti. Depende se tu queres esperar, ou avançar,viver o momento e entregares-te a certa pessoa. Mas de facto, não somos de ninguem, e podes abdicar a qualquer momento de quem quer que seja, pela tua liberdade.

márciaboaventura disse...

- a tua escrita é realmente impressionante, muitos parabéns.

luisinha disse...

do céu, do céu maria estrela.

luisinha disse...

espero eu que nunca tenha de curar o meu. custa-me sempre de cada vez que o magoam.
é tão querida aquela música!