domingo, 2 de outubro de 2011

146.


E depois vejo-me apoiada em pedaços de papel e em rasgões de alma que ninguém soube cuidar, ali perdidos no chão do quarto. Vejo-me eu e outra igual a mim, junto ao peito, falando-me de viagens e de amores que morreram à beira mar. Vejo-me eu, em espelhos estilhaçados, querendo acreditar que um dia tudo passa porque, ohhh, o tempo é almofada de coração. Vejo-me eu ali, rendida a fardos pesados, num ou outro espaço vazio da mente, com medo que o bolor sentimental se entranhe demasiado. Pequenina que nem um suspiro, em tempos em que as bofetadas são rainhas. Esperando que o mar caiba na tua partida, no teu ausente eu, que teima em ficar longe quando pode ser tão perto. E por fim, vejo-me eu aqui - no descampado que é a consciência - percebendo que o mundo acaba sempre por se esquecer de nós.

Margaret, 12 de Janeiro de 1987

3 comentários:

JL disse...

um dia, tudo e todos nos esquecem maria :) adorei

Um Pagão disse...

Um dia vou querer conhecer-te *-*

opistia disse...

és demais demais demais... tu és como as folhas de livro novo: é bom sentir nos dedos, é bom cheirar, é bom ler (muitoooo bom), é bom ouvir-te o silêncio, é bom saborear-te as palavras...