terça-feira, 14 de agosto de 2012

190.



Naquela manhã chegaste junto a mim cheio de pó nos ombros. Sacudiste-te e disseste-me baixinho "São as maleitas do esquecimento" e eu sorri-te para enganar o choro. Senti fervilhar em tua alma o som de quem já não mais recorda, de quem treme por ter esquecido tanto amor. Estremeci e perguntei-te como é isso de se esquecer. "É como se visses o mundo inteiro dentro de um agudo", sussurraste num tom inebriante, talvez de jeito a me adiares a cólera, e eu soube nesse instante que o esquecimento é um homem com um violino no lugar do coração.

14 comentários:

lebronlimiano disse...

E a minha alma recorda, de quem sorri com tanto amor para te dar. Nesse momento eu soube que, as palavras que saem da tua boca, são um violino que dá musica, daquela musica que o meu coração nunca se farta. P.S. <3!

inês disse...

gosto de ti

Vanessa Kiekeben disse...

lindissimo!

F. D. P. Carvalho disse...

Deixa-me dar-te qualquer coisa apaixonada, qualquer coisa deliberadamente tosca. Que tu não te encontres não me impede de te encontrar; e é precisamente nas ausências de tudo que nos encontramos puros e infantis. Pensar em ti – incontornável, extensa – não é uma inoportuna chuva de verão, é uma sombra durante o sol do meio-dia, qualquer coisa preciosa e necessária ao funcionamento do meu ser. Precisamente nesses farrapos de tempo em que a comunhão com o mundo é serena, surges tu pondo em todos os minutos um peso, uma medida, uma estória que faço minha – desesperadamente. E esse jogo que te fiz jogar – ou esquecer -, parece-me um crime de amor; porque foi mais para te agarrar a mim do que para te expulsar. E agora? Há um futuro? Ou apenas um passado louco e inconsequente? Fiz muito mal em duvidar dos meus sentimentos, tão necessários à vida, à beleza, à alegria. Olhar-me sem rumo e perder a razão. As vidas que matei só voltam para dizer que estás viva; só voltam para chorar o que perdi; só voltam para me enlaçar nos teus braços de sol e dizer: és única! Serei uma multidão que passa por ti e não vês? Serei uma multidão que só sentes de noite? Na companhia de toda a gente que te quer, que só quer um pouco do teu naufrágio; que desejam perder-se quanto só queres ser encontrada. Nunca te direi que preciso de ti mas direi sempre que te quero na minha vida. Porquê? Porque... sim, porque sim! Sentir-me livre de todos os preconceitos e dizer: tem de ser, tem de ser – senão o que vai ser de nós? Apaixonar-me por ti foi a melhor coisa que me aconteceu. Acreditar que poderia encontrar em ti algo de especial foi maravilhoso. Confirmar isso com palavras tuas foi como ressuscitar. Agora que te encontrei tremo... pensar que posso perder-te - é fácil! e é tão difícil encontrar alguém que nos compreenda a alma e o coração. Tenho pena das pessoas que morrem sem se encontrarem. Mas não será o meu caso, não será o teu caso; pois apetece-me dar-te a mão e caminhar ao teu lado. Tu és daquelas mulheres que dão vontade de abandonar tudo, apenas para as seguir; de ajudá-las nos maus momentos e levá-las ao colo. Porque a tua luta é a minha luta – inseparável. Mas que coisa é esta do desespero? Este erotismo que nos leva a fazer o contrário do que achamos certo? Que valores e morais idiotas nos corromperam o espírito? Estamos doentes? Estás doente? Curemo-nos! O que vejo quando te leio é a tua vontade de transformar a vida, o amor, reduzir tudo a cacos e voltar a juntar tudo com uma cola doce e invisível. Então porque não o fazes? Porque esperas por esse dia que não há meio de nascer quando, na verdade, ele já nasceu no dia em que sorriste depois de chorar desalmadamente? Lembras-te que sorriste com a ideia de um futuro amor, de um desconhecido feliz por te ver feliz? É nisto que penso – às vezes -; por gostar de ti – sinceramente -, por desejar-te secretamente – muitas vezes.

F. D. P. Carvalho disse...

Não acho que seja asneira o que te vou dizer. É muito fácil amar uma mulher pelo que pode representar. Podes chamar-me mentiroso. O que escreves é como o fumo espiralado de um cigarro abandonado. Fica a pairar no meu pensamento durante horas; intoxica-me e põe-me sonzo. Talvez muitas pessoas te achem um piano desafinado mas eu sempre que te toco, qualquer nota soa-me sempre afinada, perfeita, sublime; enchendo-me o peito de ecos profundos. Vejo então imensos abismos na minha alma, fisuras incomensuráveis que nunca tinha visto e penso: o que fizeste, Maria... Olha o que fizeste... isto não tem fim. Mas como tu, no teu sonho, também não encontro desespero; mas apenas uma suave sensação de leveza porque este vazio tem os contornos do teu corpo - vasto como o mar e infinito como o céu -, da minha coragem, da minha vontade. É bom descobrirmos vazios, novas dimensões, dentro de nós; e é ainda melhor poder dar-lhes um nome! Obrigado, obrigado, obrigado. Pareces não confiar no amor – mas ele é cego –, então substituemo-lo pela afinidade, a igualdade, fraternidade ou mesmo a liberdade. Não se confundem todas no mesmo sentimento? Todas elas tão raras; todas elas tão caras. E se mesmo assim, pintando os sopros de outra cor, te roubo o sono considera tudo isto uma mentira; que minto desalmadamente para te agradar, para que o sofrimento não seja mais que um momento sem exemplo, para que possamos rir, das tolices que dizemos. Só as crianças levam as brincadeiras a sério – por serem falsas, inconsequentes, tão inconsequentes que por simples brincadeira não têm graça. Que pensar dos homens e mulheres que levam o amor a “sério”? O mais ridículo dos rituais, cheio de cerimónia e sensabor; cheio de lágrimas e dor? Não creio no amor inocente, infantil, desinteressado; ele é rico em contradições, beleza, revelações, inteligência, mistério – o mais complexo dos sentimentos. O amor é absoluto, preenche sem doer; e como todo o absoluto basta olhá-lo de frente, sem medo; como se olha o céu, o mar, a noite, um soriso. Não é assim tão fácil? Bem... também não é assim tão difícil. Minto? É curioso pensar no prazer que a mentira nos dá. Lutamos pela verdade mas mentimos; mentimos, mentimos, mentimos até que a mentira se torne verdade e aí voltamos a mentir. Engraçado, não é? Deixa-me contar-te mais mentiras que isso dá-me prazer; dá-me prazer que acredites nelas, que tenhas prazer ao lê-las. Perdoa-me isto, está bem? Perguntas-me quem eu sou, devolves a pergunta que te fiz sem responder. Não posso deixar de rir... Parecemos dois garotos a brincar à cabra-cega – mas os dois vendados! Ora bem, eu respondo: sou uma pena mágica. E o que faz a pena mágica? Exactamente: Magia. E tu quem serás? Pequena-sereia ou Lady Mary, pirata e senhora dos sete mares? Em ambos os casos a pena mágica dá imenso jeito, pois como se sabe a “magia” leva-nos sempre para muito, muito longe, basta encontrarmos o norte. Os marinheiros encontravam-no nas estrelas, e nós? Talvez nos sonhos... E por fim só me apetece dizer: cai... cai... cai...

mary disse...

Como me faz sorrir. Como me faz cocegas nos pés e suspirar

mary disse...

Eu não sei ao que cheiras, mas sei que cada vez que cá venho, é como se me abraçasses a alma!

lúcia. disse...

será possível que tu só escrevas coisas que arrepiem a alma?

Mafalda disse...

que lindo, lindo. que saudades disto!

Skinny Love disse...

"o aquecimento é um homem com um violino no lugar do coração" que frase mais bonita de se ler!

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F. D. P. Carvalho disse...

O espanto que provocas deve-se mais à tua indiferença para com os outros, do que à tua, digamos, vontade de agradar. Falas pelo simples facto de dizeres “eu existo”, e partilhas experiências e momentos quanto a única companhia que tens és tu. Estar sozinha é muito mais que o abandono e o isolamento, e não duvido que esse “muito mais” te seja familiar. É o querer viver que te doi e o êxtase que te mata lentamente. “Estou aqui, toda a gente me pode ver” - tal como uma farrapo de nuvem que ninguém pode tocar... Mas não é a impossibilidade que nos impede de olhar – é mais fácil esquecer a terra do que o céu. Temo que seja vítima deste crime bem humano: a impossibilidade de esquecer o que parece impossível. Chove, agora chove. Esta nuvem cinzenta sobre mim. Vejo azul mas chove sobre mim. Esqueço-me de ti só para que a chuva me lembre o quão triste é viver sem esperança. Admiro-me da minha incapacidade de percorrer os caminhos que toda a gente segue. Mas aí vive a resposta para todo este amor: não os sigo porque não estou sozinho como eles. Fico, antes, à espera em todos os bancos de jardim porque alguém me acompanha nas horas, igualmente à espera que a andorinha se vá embora.

F. D. P. Carvalho disse...

Faço-te tão preciosa. Até ao fim. Para que não esqueças o sorriso antes de adormecer. Para que não durmas em falso, que em mim vives à espera de acordar. Admirar-te verdadeiramente com o toque sincero dos meus olhos e parar-te a respiração com um abraço inesperado, esperado. E para que os meus contornos não te magoem eclipsar-me-ei no teu corpo dourado, como um raio de sol descuidado, e dormirei ao teu lado. Da minha boca sairão palavras que cairão molhadas sobre a tua pele e nos teus lábios os beijos serão asas de andorinha febril. Mas quando eu nas alturas me transformar em balão vermelho, rebentarei de tão perto estar do amarelo do sol. Eu, finalmente, perdido na plenitude do teu ser não precisarei de pára-quedas porque toma-me a alma esta certeza de pousar sempre nos limites do teu amor. E já quando o inevitável adeus for uma lua cheia eu partirei para qualquer praia à tua procura, em busca da tua mão, húmida, na minha mão, cheia, unidas à beira-mar. Será nesse encontro entre a terra e a água, entre o sonho e a vida, que a mentira será verdade e a andorinha não tornará a voar para o país das lágrimas, porque a baía dos desejos arderá toda a noite nos peitos escuros dos enamorados. E se eu estiver a dizer asneira e o espelho da alma não reconhecer as imagens que palpitam inesperadas no teu coração, então eu não passo de um violino desafinado.

efeito placebo disse...

Nunca percas esse sorriso.

Ana Cancela disse...

'o esquecimento é um homem com um violino no lugar do coração' <3