segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

204.


Não saberei decerto quantos abismos colhi em tua pele, nem com quantos bombardeamentos me mataste. Reconheci-te; ohh tal acto de loucura extasiada! Só agora o sei afirmar, agora que não perfuras mais a memória dos dias a serrotes intermináveis, agora que és já dormência nos pés e não sangras ininterruptamente num lugar desconhecido da minha loucura. Creio que endoideci, dirias, crês que endoideci. Quantas noites de latejo infantil dentro de mim, como álcool a chuviscar numa ferida e desde sempre a percepção de seres tu a causa de minhas queimaduras internas nocturnas. Não regresses, não regresses! -  ordeno. Não voltes ao porto se não tiveres urgência de coração, não voltes agora que és nada senão o prurido que sempre assinala o fim da ferida, a iniciação de uma hodierna vida, da crosta, da pele que virá, que se renova e se prepara desde então para novos tiroteios.

9 comentários:

Marco Goethe disse...

Achei interessante a referição à loucura
Também fiz a minha análise:
http://risingbelow.blogspot.pt/

han disse...

céus, este texto está magnifico. intenso e com palavras que gritam na alma.

Aida disse...

adorei o teu blog - que surpresa tão agradável! Gostaria de te convidar a visitares também a “minha casa”. Espero que te sintas lá tão confortável quanto eu me senti na tua! ;)
Votos de muitos sucessos.
beijinho
http://cottoncandy-peaches.blogspot.com/

han disse...

oh, mas que doce!

mary disse...

Doce Maria. Nem sei explicar o quão bom é ler-te

mary disse...

Como é bom saber isso, Maria..

Lipincot Surley disse...

Cicatrização por 2ª intenção. Deixar a ferida, aberta, a secar, a doer, a enlouquecer. Deixá-la quieta e sozinha com os bordos mais afastados que vales. Quando se pedem mais abismos, mais tiroteios. Quando não sangra (mas) e ainda é dormência. Quando isto acontece parece que a cicatrização ocorreu.
Pergunto-me como seria se a outra pessoa não obedecesse (e regrasse) e se mostrasse urgência de coração. Era possível que ferisse a pele em outro local? Era possível que ferisse o mesmo local? Era possível até que tivesse perdido todo o seu poder de corte... A pele... o que vale é que por vezes desconfio termos mais pele que coração.*

(Maria, que bom saber que ainda me visitas. Que bom saber que te leio há tanto tempo e que continuas! Eu tenho andado tão mais parado. E regressei hoje e pensei em escrever mas os meus dedos - desconfio não trabalharem ao frio (não do ar) e precisarem de ser escaldados primeiro. Têm de ser revoltados! Não pararei de cá vir..*)

Mac disse...

Acumula urgência e escreve ou simplesmente escreve sem urgência? Gosto muito do que aqui encontrei.

Maria disse...

Reli várias vazes a pergunta e chego agora à conclusão que escrevo apenas a urgência de algumas palavras, a urgência de se sentir. Às vezes, porém, essa urgência acumula-se também, e aí escrevo urgência a dobrar. Muito obrigada!