quarta-feira, 12 de junho de 2013

220.


Ficaste-me com os dias errados, agora chove na Primavera. Chove, sobretudo, dentro das artérias, onde ensanguentado meu nome se aloja e te espera ainda. A memória cheia de cotão e de horas quebradas - devolver-me ao atrito do esquecimento, esfolar o que resta de tacto e sede, anoitecer. A cálamo e sangue vou rasurando as últimas nuvens; o deserto inunda as paredes do oblíquo coração. Desconheço o nome desta casa; ficaste-me com os dias errados. Penso convulsão e um choro incapaz entra pelas janelas e devora ventrículos e outros metais pesados. Remendo a nudez agora que os corpos se habituaram à frigidez da madrugada e os dedos não percorrem mais o ímpeto do carvão. A sofreguidão é uma ave de rapina que perigosa e avulsa nos rasga em saudade. Mas tu ficaste-me com os dias errados e agora calço a solidão como a um par de sapatos.

                                                                                                                        Margaret, 19 de Maio 1978

11 comentários:

Iolanda disse...

"Remendo a nudez agora que os corpos se habituaram à frigidez da madrugada e os dedos não percorrem mais o ímpeto do carvão." a frieza de não mais sentir, que o sentir se resume agora a pressentir e nada mais. Lindo Maria, do princípio ao fim

Fábio Carvalho disse...

Ó, de que árvore caíste tu? Queres mesmo saber onde ando, Maria Margaret, ou foi do aborrecimento?

Fábio Carvalho disse...

Veja que a tens continuado com a tua escrita de fusão. Se não a moderares acabas por desaparecer deste mundo. Pensas que já é hora de dizeres adeus? O que é que viste para te achares tão altiva, tão ditadora, tão destrutivamente distante? Supernova, Maria, desejosa de negritude.

Fábio Carvalho disse...

A minha ausência assola o quê? A tua paz de espírito? As tuas confissões permanecem intangíveis. Contudo, descubro novamente, que o que dizes me encanta. Chamas a isso saudade... Não sei, chama-lhe o que bem entenderes. O certo é que me encantas, desde o início. Porquê, também não sei. (Hoje acordei burro, só pode.)

Anónimo disse...

quem ficou com os dias errados?

Maria disse...

Alguém com muito tacto e poucas mãos.

Anónimo disse...

o que significa isso?

Maria disse...

Ah, sem nome, há perguntas que não se fazem...

Anónimo disse...

desculpa.

Fábio Carvalho disse...

Sem grandes palavras, ofereço-te um verso do tamanho de um poema: Amo quem é mundo e sofre com ele.

Anónimo disse...

o João gosta mesmo de ti.