quarta-feira, 28 de agosto de 2013

224.


Não há dias sem carvão nem sede.
Refaço nós e o pó instala-se no interior dos dedos e dos sustos. É esta a trémula voz que me segreda perigosas contaminações
quando o sol se demora e as horas são só relógios e marcações impossíveis.
Danifico-me.
Assim se conduz a pele e outras gasolinas pendentes no motor da fala. Escrevo contra a antiga solidão do mundo, meu velho amigo. Não há mal nenhum em quebrar palavras, penso. E os solavancos do tempo palpitam na circulação de sangue venoso que esqueceste em mim. Ah, quantos depósitos aonde ninguém chega... Às vezes é preciso regressar para poder repetir a partida e a palavra adeus. Às vezes é preciso.
A nudez dos dias incrusta-se em mim, sangrar faz parte da memória quando já só se armazenam velhas madeiras rachadas.

6 comentários:

João Alpoim disse...

de onde vem tanto pó maria ?

João Alpoim disse...

E a solidão, é preferivel estacionária? apreciavas-la dessa meneira? Também te confesso algo igualmente negro: secalhar não viveria sem esses solavancos... ou secalhar preferia que a solidão não ficasse nunca. A verdade é que não sei.
Que te criem a necessidade de escrever, esses infortúnios, é apenas apreciável. Assumindo o meu egoísmo: continua Maria, também secalhar essa tua necessidade é o que ajuda os meus dias a ficar um pouco menos sombrios.

João Alpoim disse...

A solidão estacionária, como dizes: um osso enterrado na pele, será sempre isso. Mais uma limalha acrescentada a toda essa ferrugem e magnésio que em noites voláteis arde em demasia. Aprendi que a noite deve vir aos pouquinhos, de forma a que a ternura e o sangue vazem devagar e ininterruptamente. Porque a dor também é necessária e ao ser roubada instantaneamente fico atordoado em fantasia "desses rios que não se tem".
Já não tenho bolsos nem gavetas onde guardar malícias e horas. Escolhi tornar-me árvore ao invés de me sujeitar a que elas me aparecam nos muros e corpo sendo maiores de sombra e ruído do que qualquer estigma. Recordas-te das árvores?
Essa coisa da memória é um cancro sem vontades que as extraiam... aceitação, não esquecer?

João Alpoim disse...

o tempo não pressiona nestas circunstâncias, a resposta seria em tempo a qualquer altura. E se aí existo, aí permanecerei, e se alguma vez precisares de voltar ao frio e desenterrar algumas palavras de um velho esqueleto fossilizado em ti, também aí estarei.
Fico contente ao saber que vives feliz como estás agora, que tenhas alguém que te ocupe espaços. Cresce girassol cresce, dança com as mãos no ar e deixa as andorinhas voar. Também sempre me habitarás, não esquecerei nenhuma noite.

João Alpoim disse...

Não sabes o que me alegra ouvir isso. No entanto agora não é altura para perdões, apenas trazem nostalgia e arrependimentos. Cada um faz o que pode e tem vontade para fazer, a falta de algum dois só dá origem a mentiras e derrames. De onde surge essa necessidade Maria? O que te faz pensar que tens algum aspecto a melhorar? Reforço o que disse atrás, são vontades e motivações, um pouco de fé também, o resto não existe e todos somos perfeitos, tu também.
Não há sala nem coração que se clarifique só com uma luminária, e tu foste a outra. Toda a luz se vai em noites de solidão bem como todos os nevoeiros e luares, sou normal, do mais ridiculo e ordinário, sou perfeito novamente... talvez um pouco mais ciente e trilhado, e arrependido.
Sempre pensei que metade das coisas não foram ditas, e houve e há muito que te queria dizer, coisas ridiculas a que se tomou atenção e coisas belas de algodão e nuvem onde não se deitaram os olhos... Também eu me encho de coágulos de perdões que te devo, e de nada adiantam agora pois não? "Farewell my memory, oh memory", procura o verdadeiro e definitivo.

João Alpoim disse...

Maria... De tantas contaminações e retalhos te fazes, e esqueces o que és. Não te faças de idealizações epistolares nem temas o ordinário. És bonita como eu te vi, assim te amei e talvez ainda amo, não camufles de idealizações os mares que tens. Eu sei... eu sei porque te cheirei o cabelo d'aguarela e inspirei maresia e ternura, eu sei porque o eu está nas palavras, e dessas à noite foram aos milhares. E como tu, de dia eu cobria-me em mantos, com medo que me vissem. Mas tu sabes... tu sabes porque me tacteaste as mãos, cheiraste e inspiraste: Outono e ternura. E tu, "conheces-me melhor que ninguém"... e tu sabes, e eu sei, "porque posso não dizer, mas a ternura já só tem significado à tua beira". E hoje, como és grande, te pus no meu livro, e te escrevo um texto e um poema fundidos, porque acho que assim o mereces e porque assim o posso fazer, mulher atómica, poser, meu guarda-rios.