terça-feira, 18 de março de 2014

230.



Desagua na infindável fome
  o sexo mudo das plantas e do anoitecer.

Cobre-se a enorme sala de frio. Meus ancestrais dançam com o corpo que tive e que hoje é só partida.
Manejo o acre sabor da floresta vertiginosa. Visto-me de fendas, de séculos. É o teu nome, enfim,
 o teu nome,
 o que substituiu o coração por este
 lugar de sangue.

Assassino-te. Não há mal nenhum em dizê-lo: o teu corpo é só uma mentira
que usaste para me matares melhor.

Estou só. Horrivelmente só.

Perpétuo as pupilas
para não cegar na cor
        da solidão.

Manejo a perícia dos dias, os incontornáveis assaltos da lucidez, a natureza mecânica
de um coração. Os desencontros diluem a nossa sede de sonhar.
  Fustigo-te para que o asfalto não queira dizer esquecimento. Digo: olha, presta atenção:

 Teu cálido destino
        a embater violentamente na mansidão.

4 comentários:

João Alpoim disse...

Fico contente por ver que ainda vives.
Por vezes o recalque a que me submeto não encontra fim, até que leia semelhante passagem, e me leve novamente ao ténue quotidiano de um rio.
Não pares maria, nunca pares. Eu vou estar por cá a ver.

Maria disse...

Oh João... Que bom ler o que dizes. Os meus dedos têm andado com muita vontade de dizer coisas e eu tenho de os deixar dizê-las senão eles entristecem-se e choram. Tenho saudades de ler o que querem dizer os teus...

João Alpoim disse...

os meus... entristecem-se e choram, mas estou a habituá-los a lidar com isso. Para mim, a dependência da escrita para esvaziar e derramar assola-me demasiado durante as noites inertes e a sós, "horrivelmente" e infinitamente.

Maria disse...

Então aguardo ler o que eles te fazem dizer... E se esse dia não chegar, vamos ter umas chatices.