quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Florbela Espanca


"O «Diário» de Maria Bashkirtseff é qualquer coisa de profundamente triste, de tragicamente humano. Só não compreendo naquela grande alma o medo da morte. O espectro da morte, a ideia da morte, apavora-a, espanta-a, indigna-a. É a sua única fraqueza. »Il faudra donc mourir, misérable.» «Mourir? J'en ai très peur... Et je ne veux pas.» «Je veux vivre, moi, quand même et malgré tout ... » «Mon corps pleure et crie mais quelque chose qui est au-dessus de moi, se réjouit de vivre, quand même ... » Mas que imensa alma! Queria o amor, queria a glória, o poder, a riqueza, queria a felicidade, queria tudo. E morreu com pouco mais de vinte anos, gritando até ao fim que não queria morrer. Como não compreendeu ela que o único remate possivel à cúpula do seu maravilhoso palácio de quimeras, de ambições, de amor, de glória, poderia apenas ser realizado por essas linhas serenas, puríssimas, indecifráveis, que só a morte sabe esculpir? Os seus vinte anos não chegaram a compreender o alto e supremo símbolo das mãos que se cruzam, vazias dessa maré de sonhos que a vida, em amargo fluxo e refluxo, leva e traz constantemente. Princesinha exilada, porque não soubeste tu murmurar, encolhendo os ombros, o teu doce e sereno «nitchevo» de eslava?"

Palavras escritas 6 dias antes do seu suicídio. 8 de Dezembro de 1930. Florbela Espanca, esta frieza perante a morte muito me faz lembrar eu. Estas tuas palavras muito me fazem lembrar eu. E é mesmo assim. Grandes almas partem depressa. Demasiado grandes para a morte não as abraçar.

2 comentários:

Patrícia Costa disse...

grande Florbela Espanca!

Cristina Sá Lima disse...

mesmo. mil e um <3
eu foi no tumblr, as always :)