segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Confissões de um Assassino



"E a sua cabeça esvaiu-se por entre a neblina de pensamentos rugosos. É como se de um momento para o outro tudo berrasse com maior intensidade. Como se o espaço compreendido entre o deleito e o amor se tivesse quebrado e agora cacos soltos de ingenuidade perdida colavam-se algures em si. Que nem assassinos, que nem sexo e amantes em jeito de orgasmos. Uma percepção de tempo mal medida, das que faz mal às almas apaixonadas, disse-me. E branco, agora a sua mente fora manchada a branco. Não a branco vulgar, de vestido de noiva ou de neve afagando cabelos. Mas um branco sujo, nojento, um branco de cheiro a comida estragada. Como se fossem mentiras, mas mentiras dolorosas, pintadas e retocadas nesses tons de assassino. Das que doem. Das que doem tanto que nem facas cravadas no peito. E agora lá estava ela - nos limites azuis das nódoas negras. Afundando-se em meus pseudónimos e de alma cravada a uma outra coisa qualquer. E eu gostava de vê-la assim: que nem borboleta presa num frasco, debatendo-se com o azedo dos limites impostos. Confinando-se ao nada - que lhe sabia a um verde enjoativo - de rasgões em coração. Ficava desalentada, sem brilho, a minha pequena orquídea, de todas as vezes que a encurralava um pouco. Um pouco - sim - porque de facto nunca a cheguei a aprisionar a sério. E sabia que a saliva se tornava vinagre e o sangue coagulava mais depressa do que o habitual. Sentia-a sempre envolvida em névoa quando restringida a pequeno espaço de movimentos. Era que nem uma andorinha, de textura acetinando liberdade e sem barreiras impostas. Ohh e ela tornava-se tão pequenina sempre que a colocava na gaiola. E eu sabia fazê-lo na perfeição - a verdade é que não era necessário muito. Não quando o amor dela possuía, quando um pedaço de alma me aquecia diariamente a palma das mãos. Porque ela era um bocadinho minha, sempre fora, agora ainda mais - é-se sempre mais um pouquinho de todas as vezes que somos engolidos em descalabros emocionais. E eu tinha-a presenteado assim: inicialmente dando-lhe amor - ohh amor, a mais bela armadilha da história da humanidade - e, mais tarde, com vingança, ódio, sofrimento e todos os sentimentos sujos e consporcados dos seres. E resultou. Resultou de um jeito que nunca pensei, minha orquídea. Porque agora és minha - não toda - mas parcialmente. E és de alma branco encardido sempre que me aproximo. Não te julgo - longe disso. Apenas te deixaste apaixonar - e o amor pode ser tão traiçoeiro! Apaixonaste-te por mim, que sou menos que azul. Um azul bandido, mentiroso, desconfiado. Um azul de borrão sofrido e manipulador. E chego até a lamber a pena por ti, sabes? Que costumavas ser de alma viçosa cor-de-rosa que nem algodão doce. E foi o motivo pelo qual me aproximei de ti - essa terrível bondade esbatida em tons suaves. Sempre irremediavelmente boa mas sem nunca por uma rosa passar. Porque não eras uma rosa - longe de seres - se caso o fosses, confesso-te, nunca te teria achado a menor piada. As rosas são vulgares, com os seus espinhos invocando o mal mesmo sem sequer lhe conhecer a textura. Mas tu, por sua vez, não passavas de uma pequena orquídea. Delicada e frágil de contornos esbranquiçados e de umas fugas de rosa nas pétalas. E isso fez-me gostar de imediato de ti. Seres o bem mas nunca o bem corrente. Outro tipo de bem. O bem que gosto particularmente de exterminar. E agora andas tu - que nem meia perdida - entre mim e ti. Entre o eu que não existe e o tu que desapareceu. Entre o nada que agora te preenche as medidas a tempo inteiro e o suor que te deixei cravado na roupa. E tal como um dia me disseste, só vais amar realmente alguém quando a tua pele fores capaz de despir . E sabes...Nunca nua te devias ter colocado, há tantos perversos neste mundo, pequena orquídea."

5 comentários:

luisinha disse...

«ela era um bocadinho minha, sempre fora, agora ainda mais - é-se sempre mais um pouquinho de todas as vezes que somos engolidos em descalabros emocionais. E eu tinha-a presenteado assim: inicialmente dando-lhe amor - ohh amor, a mais bela armadilha da história da humanidade - e, mais tarde, com vingança, ódio, sofrimento e todos os sentimentos sujos e consporcados dos seres. E resultou.» estou... não tenho palavras. é inteiramente escrito por ti? tu és enorme, queria Maria. COMO EU NUNCA VI.

luisinha disse...

sabes... és um bocadinho do céu. preciosa mesmo! que te dêem todo o valor do mundo.

filipa disse...

juro que estou boquiaberta com a imensidão deste texto Maria. Está algo de outro mundo sem duvida *

Beatriz Araújo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patrícia Costa disse...

Acho que estou capaz de ler e reler por mais umas mil'vezes! Nunca chegarão para te explicar o quanto isto me é profundo. é dos pés à cabeça- grandes sentidos!