terça-feira, 24 de abril de 2012

178.


Havia alturas em que o pôr-do-sol ia embora sem se despedir e a minha pequena orquídea soluçava para dentro o caos e erguia-se feita abandono. Segurava-se nos braços do adeus que não houve e fingia não lhe doer os contornos, mesmo possuindo-os já todos desalinhados. Apanhava as tulipas e enquanto as colocava nos cabelos dizia baixinho "Não se cedem corações assim". No exacto momento em que numa dessas vezes o proferiu, a garganta inflamou-lhe e até eu consegui ver que por dentro ela era já só pouco mais que feridas. A sua voz continha um trago azedo, de quem está vivo e não pára de morrer, de quem sustenta os ombros na inércia das tardes sonolentas e, dentro de si, vivem todas as revoluções do mundo. Já perto do desgaste emocional, da contradição de coração, prometi-lhe nunca mais deixar que esse fim de dia manhoso lhe desabitasse a alma daquele jeito fugido. Sorriu-me. Ela sorriu-me aos segredos, arfou, devagar, devagarinho, para que aquele sorrir fosse para sempre. E eu, para que nunca mais ninguém fosse capaz de abrir mão da minha orquídea, fechei com muita força os punhos.


6 comentários:

inês disse...

Estar vivo e não parar de morrer...
Maria, trazes tanta magia contigo. Sempre que te venho aqui visitar é como se visse sorrisos nas palavras, sorrisos de alguém com alma de gigante. És tu, gigante.

F. D. P. Carvalho disse...

Calo-me
Aqui não há palavras
Porque não se fala de amor
Onde crescem flores e dorme o coração.

F. D. P. Carvalho disse...

E esse amor que tanto falas repleto de palavras é uma lembrança distante ou um facto presente?

F. D. P. Carvalho disse...

e é o chamamento dessa margem que alimenta o desejo de me lançar no fundo desse abismo na esperança de encontrar nesse canto de sereia a mulher onde me afogo.

F. D. P. Carvalho disse...

Considero uma loucura maior viver sozinho com falta de ar.

F. D. P. Carvalho disse...

Esta passagem d'A Casa e o Mundo, de R. Tagore, tem o teu perfume:

"Não estou onde me encontro, estou muito longe daqueles que me cercam. Vivo e movo-me sobre um abismo imenso de separação, insegura como uma gota de orvalho na folha do loto.
Porque será que, quando mudamos, não mudamos completamente? Quando olho para dentro do meu coração, vejo que ainda lá está tudo quanto estava, mas numa grande confusão. As coisas que estavam bem arrumadas encontram-se em desordem, as pedras preciosas que, enfiadas num fio, compunham um colar, rolam pelo pó. E por isso o meu coração estala."