quarta-feira, 9 de outubro de 2019

265.




Ainda em meus dedos o aroma
de minha cona sendo masturbada
no exacto compasso de teu rosto
posto na minha mais profunda
especulação         [imaginativa.

Uma cona que se acaricia com
o tremor da memória de um amor
especular húmido veloz
é sempre uma cona vasta de tristeza.

Repara:
Isto não me impede de permanecer
acariciando-a
como se nos amássemos ainda
como se houvesse ainda tempo
e espaço e fruição entre nós

Nós que estamos distantes
como dois amigos tristes
distantes como um país em guerra
distantes como o verão da meninice
tremenda e para sempre queimada.

Trazemos as mãos
postas em nossos respectivos sexos
longínquos e ardentes e melindrados
arfando de um desejo que é mais ficção
embora nos toque como se fosse verdade
mais ficção como quando se pensa muito
com muita força
em calor
e o corpo
apesar do frio
[aquece.

E eu masturbando-me
e tu masturbando-te
e o amor como um rugido imenso
perigoso
iconoclasta
o amor como uma capital saqueada
e destruída por bárbaros
a voz gemendo como outrora
os olhos a boca as sobrancelhas
executando movimentos
como outrora

mas não
não há outrora

Meus dedos ainda cheiram
cheiram à minha cona
um misto de tardia menstruação
excitação
[e mágoa.

segunda-feira, 26 de março de 2018

264.





O gosto da cereja entre minhas frias
têmporas é tudo o que resta dos
amantes que foram como agulhas
eficazes metódicos incalculáveis.
Podemos perscrutar o passado
como a um filho morto:
o seu interior os rins a linfa.
Demorarmo-nos, quem sabe,
nas unhas lascadas ou na leve
curvatura do anelar esquerdo;
tudo isso que enregelado
recorda ainda a legitimidade
tão parca do sangue e do afecto.
Podemos executar tal exercício
como a uma oração diária
procurando compreender como
terá sido possível tanta luz e
tanta dor numa mesma estação;
como terá sido possível que
a falibilidade fosse afinal
o mais certo destino da carne.
Vou agora repartindo pelos dias
essa análise minuciosa
e paulatinamente catalogo
pâncreas, pulmões, salitre,
com o desdém próprio de
quem não vive senão para
desvendar os mistérios da sua
memória. Sem o meu medo,
quem é que eu sou? O que
significa este pedaço de
pele como uma alga seca
onde adivinho estar meu coração?
Quero dizer: o que significa
o horizonte já pálido de um
qualquer amor por demais
sádico e tardio?
Eu sou quem tenho mais
a parte indivisível da mágoa
que sempre trago sabendo
e não sabendo porquê.
Eu quero coisas grandiosas
como a felicidade dos astros
ou o riso imperturbável da
criança. Eu anseio mais
do que esta nódoa junto
ao pulsar da terra que é
também minha e assim
entristece na exacta medida
em que amargura meu sangue.
Na realidade, não há muito a fazer:
eu sempre vivo recorrendo ao mundo
como se ele fosse um filho
que por desmazelo ou deleite
alguém deixara morrer à fome.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

263.


punlovsin:
“ via
pinterest
”


Entre vós haverá quem salde esta antiga
dívida de mágoa e sono: uma terra desaparecida
que fora ao mesmo tempo raiva e resignação.
Uma mulher que seja má há-de sempre relembrar
a doçura improvável da laranja e através dos seus
gestos de derradeiro desejo havemos de recuperar
o gosto do ventre que perdemos para o olvido.

Entre vós haverá quem desenterre certos mortos
ah nossos queridos mortos doces mortos
e de novo o tacto entre nós e eles seja uma travessia
exequível; isto é, uma vez mais os lábios encontrando
os antigos lábios agora dura ossada e os olhos alcançando
os antigos olhos agora imperturbável buraco vazio e nos
deleitemos como outrora nos havíamos deleitado[

Vede bem: uma mulher má saberá morder a lembrança
dessa carne perdida com audácia tal que os próprios mortos
hão-de começar a gemer.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

262.


blueblackdream:
“Eva Besnyö, Eva et Magda, Hongrie, 1929
”




O mundo foi sempre para mim uma forma de estranheza. Eu que
perscrutei o interior de um corpo como a um vulcão e lhe dei de
comer como se a saciedade fosse uma brincadeira das horas livres
eu desisto da minha impermeabilidade de solo embrutecido e
torno-me uma coisa ainda mais violenta:

                      o movimento            
                                  dos braços

                                           do homem


     



                                                                [que se está a afogar.

quarta-feira, 8 de março de 2017

261.




Completo o arco singular
da tua palavra maldita
e embora o ventre se sacie
como resgatando-se por
dentro de si mesmo
eu entristeço
indefinidamente.
Recuperar o canto
de quem amámos
julgando nunca ter
verdadeiramente
amado
magoa o passado
com aguçadas
flechas de crómio
e naftalina.

«Tu que foste de entre a sombra
o único e incontornável
lugar de luz»,
escrevi-te um dia.

E nesse exacto
instante fomos
paulatinamente
escurecendo até
à absoluta
inexistência
de claridade.
Eu quis-te Ermita
guardião do farol
Aodh e Ozric,
e tu foste sendo
com a ferrugem
do uso o que
melhor pudeste ser.
Nomeei-te para
que não te
desconhecesse,
e todavia ter-te-ei
dado um nome ao
lado do teu próprio
ou um nome que
te servia umas vezes
para te magoar outras
tantas. Um nome
onde eu encontrava
a minha resolução
e onde tu te ferias
pelo meu obscurecido
sentido de pertença.
É muito triste o
amor que podia
ter sido, e o amor
que foi sem que
o tivéssemos
definitivamente
reconhecido, olhado
nos olhos, dito
com a veemência
necessária: «És
fruto das minhas
mãos, a tua boca
é um movimento
que torna o meu
nome navegável.»
Estou certa de que
foste possível
junto de uma outra
que era eu sem ser.
Um dia quando o
temor cessar a sua
regular investidura
e a luz seja todo
o espectro visível
e não visível
talvez te volte a
tocar a mão
e a voz
e o momento
em que me
ensinaste
a andar,
talvez volte
a partilhar
a minha cama
com o teu corpo
e só com o teu
corpo
e não mais
nunca mais
com o teu corpo
e os meus fantasmas.
E talvez nessa altura
possamos regressar
aonde somos reluzentes
e sabemos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

260.




Os homens da minha vida ou o masculin féminin

A minha vida está cheia de homens;
homens que são homens e homens
que nem tanto. Homens que se
parecem com meu pai, homens que
relembram antes o filho que não tenho
ou homens que ressuscitam meu avô
alcoólico que nunca conheci. Homens
seguidos de homens, uns mais próximos
a bichos, outros a crustáceos,
outros disformes até à imperecível
flexibilidade das algas ou das urtigas.
Olhe para onde olhar há sempre
homens. Homens brutos, macios
fluviais. Homens do tamanho de
um cisco ou homens da exacta
medida do mais ébrio dos meses.
Homens que me querem para saciar
o desejo ou para restaurar o útero materno
homens que pretendem comer-me
até ao osso ou reinventar-me dentro da
inutilidade da paz doméstica. Homens caprichosos,
peludos, homens velozes, homens
sem dentes ou homens melindrosamente
maleáveis. A minha vida está cheia de
homens. Homens em erupção, homens
regressando a casa ou homens coçando
os tomates. E ainda assim não há macho
mais dominante do que este que trago

   [entre as pernas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

259.




O poema inicia-se com tijolo, pedra, não,
inicia-se com sémen, ranho, não,
inicia-se com muitas coisas partidas.

Atiro o poema contra a cama,
como se ele fosse o amante, meu sinuoso amante,
atiro-o contra a cama e digo: «Come-me».

Embora ele se mantenha imóvel eu grito uma vez mais
o seu nome sujo que é ter nome nenhum e cuspo-lhe
em cima para que ele compreenda o tamanho do meu tesão,
para que ele sinta como trago húmido o sexo; eu grito-lhe
ferida a ferida quanto é meu o seu pudor, quanto sei
do espaço em si implicado, tudo desconhecendo afinal.

Rasgo o poema contra a pele, fraca forma de dizer
«Mesmo que não me comas, hei-de saciar o desejo»
e postulo uma lei muito antiga como única forma
possível de salvação. Eu transformo o poema em
grito de criança, e acendo em mim a memória
de um veleiro que durante a noite crê partir, chorando.

Poema,
repito inexplicavelmente. Poema, hás-de ser de quem
te quiser; hás-de dizer-me porque sofre a bugavília,
hás-de imitar a voz daquele que amei com perturbada
imaginação. Poema, poema, poema. Em ti encontrarei
todos os Homens que morreram de fome, todos os Homens
que morreram de febre tifóide, todos os Homens que
morreram insaciados. De entre tuas duras vértebras
desenterrarei o fígado daquele que ousou roubar o fogo,
e trincá-lo-ei com fúnebre sentido de justiça,
           [violentamente.

Num gesto de incalculável preponderância,
estrangulo o poema. E o poema
finge perecer apenas para exaltar sua inimputável
erecção.

Abro minha boca em sinal de pronta rectidão
e tomo nas mãos a difícil respiração das letras. Não
há obscuridade bastante para tudo o que se passa
no coração do poema. Porque o poema é vil, o poema
é porco, o poema tem um pénis demasiado pontiagudo,
com o qual eu alegremente firo meu ventre de Madalena raras
vezes arrependida, Madalena em Ascensão pelo
pranto, essa Madalena perigosa para todas as virgens
e santas e até mesmo putas desta terra. Retomo a
imprecisa velocidade da pulsação e reconheço quanto
sal será necessário para todo este corpo; aqueço as têmporas
para que nada queira dizer Grandeza.

O poema termina, indubitavelmente,
com um grunhido.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

258.


vintagephotolibrary:
“ Sebaste: Eglise de St. Jean-Baptiste
”


É sempre colérica a dor de uma casa, digo.
Eu nasço e renasço sem cessar
como se procurasse o estado da mais imprecisa identidade,
isto é, um sentido aonde os astros venham morrer.
Há sempre uma beleza de mulher a auscultar
a fraqueza e o vexame e o desdém;
um fotograma tremido dos dias solarengos
dos dias femininos da juventude e do crime
dias de abismal beleza materna, como um alfinete
esquecido numa bainha.
Eu tenho vontade de chorar contra a mesquinha
brutidão, contra a frieza que é fraude e disfarce,
eu tenho vontade de esmurrar o que sobeja
das redundantes águas de Julho.
Pouso as mãos no espelho prosaico e gasto e
todas as coisas se abrem em póstuma fé,
feitas apenas de agudas insinuações com que
eu vou distraindo o pão já duro da semana.
Revisito para adular o tédio o ventre que trago mordido
e sinto o sangue consumir-se dentro da casa,
casa que sofre com uma carne muito acesa e enferrujada,
casa já sem mãe possível.
Fechada a porta, digo, as florestas complicam-se
numa insistência matinal, como querendo dizer:
«Tenho o sexo molhado de pus e velocidade,
como hei-de eu viver com o sexo molhado
de pus e velocidade?»
E é sempre com um olhar cansado, medonho,
que alcanço o que ficou por responder, como
pedra encravada na maldade do sonho.
Se me acariciares as mãos reconhecerás
quantas foram as vezes em que minha boca
se saciou com o pecado, tão suja e imprópria.
Se parares um momento saberás que do delito
não emergiu arrependimento algum, mas só
este breve anseio de ser delirante e cruel
  [eternidade fora.