quarta-feira, 4 de novembro de 2020

267.


 


Repara: a casa existe 

como uma memória afiada

desses tempos em que foste

sim, talvez, francamente feliz

mas, sobretudo, e apesar disso, miserável.

Lastimo-me por ti, amiga. 

Estavas fadada a grandes coisas; 

o amor de alguém é um lugar tão difícil,

o poema como uma valsa por terminar,

a lua revelando o que só o açúcar promete.

Mas nada disso te valeu.

E agora, sim, a casa. A casa 

que te recorda a aspereza da iniquidade: o sangue perdido

tão ingloriamente que dá dó, 

o sangue, amiga, que julgaste ser prerrogativa da paixão

e que mais não é senão a fraca inutilidade da juventude. 

Podia ter sido diferente, pensas. Podias não ter quebrado. 

E a casa, o raio da casa, sempre relembrando

placidamente relembrando

a violência, o ciúme, a infâmia. 

Lastimo-me por ti, amiga. 

Tens agora a cabeça posta nas ossadas que ficaram

depois da ruptura

e que são afinal teu mais confortável e tíbio leito.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

266.

tesouradasocialclub:
“louis reith
”



O que está além da minha morte
será uma planta cravada na terra
ou o astro aonde certas crianças vão sorrir.

Vivo-te e amo-te não sem algum atrito
mas este poema não fala disso

não serve à magoa

antes enuncia:

«Sou da tua boca como se sussurrasse um segredo
muito límpido».

Amo-te e vivo-te na ideia sempre pulsante
de um útero que se alimenta em pleno meio-dia;
desses víveres feitos à medida de uma palma da mão
de uma fragata contra o vento.

Amo-te desde longe,
e para longe te levo metido entre meus dentes
por vezes cerrados, por vezes doridos,
outras tantas arrebatados
de te ter beijado uma e outra vez
de te ter beijado eternidade adentro.

Vezes contadas,
Amo-te permanentemente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

265.




Ainda em meus dedos o aroma
de minha cona sendo masturbada
no exacto compasso de teu rosto
posto na minha mais profunda
especulação         [imaginativa.

Uma cona que se acaricia com
o tremor da memória de um amor
especular húmido veloz
é sempre uma cona vasta de tristeza.

Repara:
Isto não me impede de permanecer
acariciando-a
como se nos amássemos ainda
como se houvesse ainda tempo
e espaço e fruição entre nós

Nós que estamos distantes
como dois amigos tristes
distantes como um país em guerra
distantes como o verão da meninice
tremenda e para sempre queimada.

Trazemos as mãos
postas em nossos respectivos sexos
longínquos e ardentes e melindrados
arfando de um desejo que é mais ficção
embora nos toque como se fosse verdade
mais ficção como quando se pensa muito
com muita força
em calor
e o corpo
apesar do frio
[aquece.

E eu masturbando-me
e tu masturbando-te
e o amor como um rugido imenso
perigoso
iconoclasta
o amor como uma capital saqueada
e destruída por bárbaros
a voz gemendo como outrora
os olhos a boca as sobrancelhas
executando movimentos
como outrora

mas não
não há outrora

Meus dedos ainda cheiram
cheiram à minha cona
um misto de tardia menstruação
excitação
[e mágoa.

segunda-feira, 26 de março de 2018

264.





O gosto da cereja entre minhas frias
têmporas é tudo o que resta dos
amantes que foram como agulhas
eficazes metódicos incalculáveis.
Podemos perscrutar o passado
como a um filho morto:
o seu interior os rins a linfa.
Demorarmo-nos, quem sabe,
nas unhas lascadas ou na leve
curvatura do anelar esquerdo;
tudo isso que enregelado
recorda ainda a legitimidade
tão parca do sangue e do afecto.
Podemos executar tal exercício
como a uma oração diária
procurando compreender como
terá sido possível tanta luz e
tanta dor numa mesma estação;
como terá sido possível que
a falibilidade fosse afinal
o mais certo destino da carne.
Vou agora repartindo pelos dias
essa análise minuciosa
e paulatinamente catalogo
pâncreas, pulmões, salitre,
com o desdém próprio de
quem não vive senão para
desvendar os mistérios da sua
memória. Sem o meu medo,
quem é que eu sou? O que
significa este pedaço de
pele como uma alga seca
onde adivinho estar meu coração?
Quero dizer: o que significa
o horizonte já pálido de um
qualquer amor por demais
sádico e tardio?
Eu sou quem tenho mais
a parte indivisível da mágoa
que sempre trago sabendo
e não sabendo porquê.
Eu quero coisas grandiosas
como a felicidade dos astros
ou o riso imperturbável da
criança. Eu anseio mais
do que esta nódoa junto
ao pulsar da terra que é
também minha e assim
entristece na exacta medida
em que amargura meu sangue.
Na realidade, não há muito a fazer:
eu sempre vivo recorrendo ao mundo
como se ele fosse um filho
que por desmazelo ou deleite
alguém deixara morrer à fome.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

263.


punlovsin:
“ via
pinterest
”


Entre vós haverá quem salde esta antiga
dívida de mágoa e sono: uma terra desaparecida
que fora ao mesmo tempo raiva e resignação.
Uma mulher que seja má há-de sempre relembrar
a doçura improvável da laranja e através dos seus
gestos de derradeiro desejo havemos de recuperar
o gosto do ventre que perdemos para o olvido.

Entre vós haverá quem desenterre certos mortos
ah nossos queridos mortos doces mortos
e de novo o tacto entre nós e eles seja uma travessia
exequível; isto é, uma vez mais os lábios encontrando
os antigos lábios agora dura ossada e os olhos alcançando
os antigos olhos agora imperturbável buraco vazio e nos
deleitemos como outrora nos havíamos deleitado[

Vede bem: uma mulher má saberá morder a lembrança
dessa carne perdida com audácia tal que os próprios mortos
hão-de começar a gemer.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

262.


blueblackdream:
“Eva Besnyö, Eva et Magda, Hongrie, 1929
”




O mundo foi sempre para mim uma forma de estranheza. Eu que
perscrutei o interior de um corpo como a um vulcão e lhe dei de
comer como se a saciedade fosse uma brincadeira das horas livres
eu desisto da minha impermeabilidade de solo embrutecido e
torno-me uma coisa ainda mais violenta:

                      o movimento            
                                  dos braços

                                           do homem


     



                                                                [que se está a afogar.

quarta-feira, 8 de março de 2017

261.




Completo o arco singular
da tua palavra maldita
e embora o ventre se sacie
como resgatando-se por
dentro de si mesmo
eu entristeço
indefinidamente.
Recuperar o canto
de quem amámos
julgando nunca ter
verdadeiramente
amado
magoa o passado
com aguçadas
flechas de crómio
e naftalina.

«Tu que foste de entre a sombra
o único e incontornável
lugar de luz»,
escrevi-te um dia.

E nesse exacto
instante fomos
paulatinamente
escurecendo até
à absoluta
inexistência
de claridade.
Eu quis-te Ermita
guardião do farol
Aodh e Ozric,
e tu foste sendo
com a ferrugem
do uso o que
melhor pudeste ser.
Nomeei-te para
que não te
desconhecesse,
e todavia ter-te-ei
dado um nome ao
lado do teu próprio
ou um nome que
te servia umas vezes
para te magoar outras
tantas. Um nome
onde eu encontrava
a minha resolução
e onde tu te ferias
pelo meu obscurecido
sentido de pertença.
É muito triste o
amor que podia
ter sido, e o amor
que foi sem que
o tivéssemos
definitivamente
reconhecido, olhado
nos olhos, dito
com a veemência
necessária: «És
fruto das minhas
mãos, a tua boca
é um movimento
que torna o meu
nome navegável.»
Estou certa de que
foste possível
junto de uma outra
que era eu sem ser.
Um dia quando o
temor cessar a sua
regular investidura
e a luz seja todo
o espectro visível
e não visível
talvez te volte a
tocar a mão
e a voz
e o momento
em que me
ensinaste
a andar,
talvez volte
a partilhar
a minha cama
com o teu corpo
e só com o teu
corpo
e não mais
nunca mais
com o teu corpo
e os meus fantasmas.
E talvez nessa altura
possamos regressar
aonde somos reluzentes
e sabemos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

260.




Os homens da minha vida ou o masculin féminin

A minha vida está cheia de homens;
homens que são homens e homens
que nem tanto. Homens que se
parecem com meu pai, homens que
relembram antes o filho que não tenho
ou homens que ressuscitam meu avô
alcoólico que nunca conheci. Homens
seguidos de homens, uns mais próximos
a bichos, outros a crustáceos,
outros disformes até à imperecível
flexibilidade das algas ou das urtigas.
Olhe para onde olhar há sempre
homens. Homens brutos, macios
fluviais. Homens do tamanho de
um cisco ou homens da exacta
medida do mais ébrio dos meses.
Homens que me querem para saciar
o desejo ou para restaurar o útero materno
homens que pretendem comer-me
até ao osso ou reinventar-me dentro da
inutilidade da paz doméstica. Homens caprichosos,
peludos, homens velozes, homens
sem dentes ou homens melindrosamente
maleáveis. A minha vida está cheia de
homens. Homens em erupção, homens
regressando a casa ou homens coçando
os tomates. E ainda assim não há macho
mais dominante do que este que trago

   [entre as pernas.